Principais Festividades Tradicionais da Comunidade Macaense

 

Alexandra Sofia Rangel

Investigadora académica, autora do livro

“Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje”

 

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Dia 10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, celebrado em Macau

 

A forma como uma comunidade se organiza e participa colectivamente em festas e festividades, revivendo as suas tradições ou assinalando da­tas com especial significado, consti­tui também um elemento identitário que importa assinalar.

A comunidade macaense habituou-se, ao longo da sua história, a par­ticipar muito activamente em festi­vidades, quer portuguesas, quer chinesas. Ainda hoje, quase duas décadas depois da transferência do exercício da soberania, em Dezembro de 1999, é assim, tanto no território, como na diáspora ma­caense.

Os feriados oficiais incluíam, na vi­gência da administração portuguesa, datas respeitantes a grandes acon­tecimentos nacionais portugueses, festividades tradicionais chinesas e também festas da Igreja Católica. Após a transição, foram eliminados os feriados respeitantes a altos momentos históricos portugueses, tendo sido, porém, mantidas algu­mas das festas religiosas cristãs, que têm especial significado para a comunidade macaense, como a Pás­coa, o Dia da Imaculada Conceição e o Natal.

Em outros tempos, sensivelmente até meados do século XX, também foi amplamente participado, pela comunidade macaense, o Carnaval, o que tornou a cidade de Macau diferente das outras daquela área geográfica:

Em épocas passadas, Macau ria a bandeiras despregadas. Vestia-se de fantasia e andava pelas ruas, cantando, galhofando, palha­çando, em gestos e atitudes de truão.

 

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Baile de Carnaval nos anos 50 do século XX.

 

 

Os sons alegres das tunas e os ri­sos festivos do rapazio explodiam em melodias ensaiadas durante muitas semanas e em gargalha­das estridentes, provocadas muitas vezes pela visão das máscaras, engraçadas e originais.

(…)

As festas carnavalescas punham uma nota viva, interessante e chis­tosa no viver pacato e monótono de Macau (Machado 2002: 147-150).

As festividades chinesas que mais atraem os macaenses são o Ano Novo Chinês, o Festival do Barco Dragão e o Festival de Outono. Para os chineses de Macau, são também importantes o Ching Ming (Dia do Culto dos Antepassados), o Dia do Buda e o Chong Yeung (Dia dos An­tepassados), sendo de registar que o culto dos antepassados é cele­brado duas vezes por ano. São fes­tas móveis segundo o calendário lunar.

Apesar de já não serem feriados ofi­ciais, duas datas continuam a ter o maior significado para a comuni­dade macaense: o 10 de Junho, Dia de Portugal, e o 24 de Junho, an­tigo Dia da Cidade de Macau, a data em que a população de Macau se defendeu com sucesso do último ataque dos holandeses, em 1622. As novas autoridades escolheram para Dia da Região Administrativa Especial de Macau o dia 20 de De­zembro, data do seu estabeleci­mento, cujas celebrações contam também com o envolvimento de instituições da comunidade ma­caense.

Para este estudo, foram identificadas quatro datas particularmente rele­vantes para os macaenses: o Ano Novo Chinês, o 10 de Junho, o 24 de Junho e o Natal.

 

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Baile de Carnaval nos anos 50 do século XX.

 

Ano Novo Chinês

 

Devido ao grande entusiasmo com que é celebrado pelo grupo domi­nante da população de Macau, o Ano Novo Chinês faz parte da vida de qualquer macaense. Sendo a maior de todas as festas realizadas na China e na vasta diáspora chi­nesa, também os macaenses a co­memoram, mesmo quando residen­tes no estrangeiro. É impossível sair à rua nesta altura sem assistir às celebrações, cheias de cor e movi­mento, que incluem danças do leão e do dragão, exposições artísticas e de flores, banquetes, espectáculos musicais e a queima quase inces­sante de panchões.

Uma tradição do Ano Novo Chinês é a oferta de lai-si, pequenos enve­lopes vermelhos contendo dinheiro, que são dados por pais a filhos, pa­trões a empregados e casados a sol­teiros. Os macaenses também par­ticipam neste costume, e a entrega de lai-si é tão popular entre eles que costumam oferecê-los nos aniversá­rios dos filhos, netos e sobrinhos. Os lai-si têm, muitas vezes, decora­ções lindíssimas, com desenhos muito diversificados, tornando-se em objectos muito apreciados, sendo mesmo coleccionados por crianças portuguesas e de outras nacionalidades, atraídas pelo seu exotismo.

As donas de casa, chinesas e ma­caenses, compram ramos de pesse­gueiro e narcisos para decorar a casa, assim como arranjos florais ela­borados, imitações de panchões e papéis e dísticos vermelhos para afugentar os maus espíritos.

Outra tradição é jogar nos casinos, em busca da sorte neste período auspicioso para todos. Muitos habi­tantes e turistas chineses vindos de Hong Kong, Taiwan ou do conti­nente chinês enchem estes locais de jogos de fortuna e azar, e dão à ci­dade uma imagem de alegria e prosperidade económica, partici­pando, activamente, nos festejos e adquirindo as guloseimas, flores, roupas, brinquedos e outros artigos habitualmente consumidos nesta ocasião. Mesmo os menos afortuna­dos procuram usar roupas novas e integram-se completamente neste ambiente de festa.

 

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Exemplo de “lai-si”.

 

 

Nesta altura do ano também os ser­viços, os escritórios, as obras públi­cas e muitas casas comerciais ces­sam completamente a actividade durante vários dias. Até os pesca­dores, com as suas embarcações embandeiradas, recolhem ao porto de Macau e vêm para terra.

Outro hábito salutar é o pagamento das dívidas até à véspera do Ano Novo Lunar. Nenhum homem de ne­gócios, por uma superstição que a todos favorece, transfere para de­pois dessa data qualquer das suas dívidas, o que é, de facto, muito benéfico para a economia local.

Cada novo ano é referido a um ani­mal do zodíaco chinês. Leonel Bar­ros, em Macau – Coisas da Terra e do Céu, explica assim esta lenda:

Uma lenda muito antiga contava que Buda resolveu chamar à sua presença todas as espécies de animais que existiam na Terra, a fim de lhes dar conselhos no que dizia respeito ao modo como te­riam que lidar com os homens.

De todos os animais existentes na Terra só compareceram doze: o ti­gre, o dragão, o cavalo, o carneiro, o galo, a serpente, o rato, o boi, o coelho, o macaco, o cão, e o porco.

Grato com a presença desses ani­mais, Buda determinou que para cada ano fosse designado um dos doze animais. Assim, cada ano passou a ser conhecido por um dos doze animais do zodíaco chi­nês divididos em dois grupos, em conformidade com os elementos da teoria dualística da criação, base da concepção chinesa do Universo (...) Pertencem ao ramo Yang – elemento viril e activo – o tigre, o dragão, o cavalo, o car­neiro, o galo, e a serpente (…) No ramo Ying – elemento feminino passivo – englobam-se o rato, o boi, o coelho, o macaco, o cão, e o porco (Barros 1999: 73-74).

Com toda a sua carga simbólica e o seu significado, esta é e será, pro­vavelmente, sempre a maior festa chinesa, que nem regimes mais au­toritários conseguiram suprimir ou limitar:

São tradições milenares que re­sistem ao tempo e às mudanças, não se deixando vencer por van­guardismos de qualquer cor polí­tica ou por modas, sempre pas­sageiras. Na China, nem o regime comunista nas suas mais demoli­doras fases conseguiu modificar hábitos e ritos de antanho ligados às festividades do Ano Novo. Chamando-lhe Festa da Prima­vera ou dando-lhe outro nome, essas festividades continuaram no dia-a-dia da vida do povo chinês e os altos dirigentes políticos vol­taram a conviver em lautos ban­quetes nesses dias de festa, que acabaram por ser oficialmente aceites como comemorativos do Ano Novo Lunar. E, não obstante as grandes transformações verifi­cadas, esta é e será sempre, tam­bém, a maior de todas as festas da população de Macau (Rangel 2009: 50).

 

10 de Junho

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O busto de Camões no jardim dedicado ao Poeta.

 

O Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas tinha no tempo da administração portuguesa um significado especial para os ma­caenses, pois, como refere Henrique de Senna Fernandes,

Camões, no coração dos macaen­ses, foi sempre o símbolo da Pá­tria distante. Esta convicção não era apenas alimentada pela romagem anual à Gruta, onde diante do Busto do Poeta desfila­ram gerações de estudantes. (…) era costume presentear-se a todo aquele que ingressasse, pela pri­meira vez, no Liceu, com um vo­lume de “Os Lusíadas”. Eu recebi o meu. Na mesma época, quando as escolas primárias eram da res­ponsabilidade do Leal Senado da Câmara, era costume premiar o melhor aluno finalista, em cerimó­nia simples mas cheia de signifi­cado. O prémio que lhe deposi­tavam nas mãos, era também um volume de “Os Lusíadas” (Fer­nandes 1999: 60).

Esse significado estendeu-se para além da transição. De facto, Luís de Camões representou para sucessi­vas gerações de macaenses a sua ligação a Portugal, da qual nunca se esqueceram apesar da enorme distância entre Macau e a então Metrópole. Nos dias que correm, mesmo havendo facilidade em via­jar de Macau para Portugal, Camões continua a simbolizar para muitos de nós as nossas origens, o nosso passado e o país que é a nossa se­gunda casa.

Luís de Camões tem um grande jar­dim em Macau com o seu nome, onde se situa a famosa Gruta de Ca­mões, contendo o seu busto. A pri­meira romagem à Gruta foi feita em 1923 por iniciativa do então Gover­nador de Macau, Rodrigo Rodri­gues, “(…) um patriota exaltado e fervoroso cultor de Camões (…) que logo no primeiro ano da sua che­gada a Macau convidou as escolas e as forças armadas para irem à Gruta homenagear o épico. (…) foi ele que enalteceu o vulto imortal do poeta e a sua emoção foi tão pro­funda que desatou a chorar, tendo de interromper o discurso” (Teixeira 1999a: 67-68). Ainda hoje, todos os anos, instituições de matriz portu­guesa, nas quais se incluem asso­ciações macaenses, e escolas de Macau, incluindo, como não podia deixar de ser, a Escola Portuguesa de Macau e o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, continuam a participar na cerimónia do 10 de Junho, desfilando perante o busto do maior poeta português e colo­cando flores no respectivo pedestal. Alunos da Escola Portuguesa de Ma­cau e da Escola Secundária Luís Gonzaga Gomes declamam sonetos de Camões em, respectivamente, português e cantonense e grupos de danças e cantares actuam no lo­cal.

Reza a tradição que Camões terá es­crito parte de Os Lusíadas nesta Gruta. No entanto, a partir do século XIX, foram-se levantando vozes con­trárias, pondo em causa até a pas­sagem de Camões por Macau. Mas o Padre Manuel Teixeira, respeitado historiador que viveu em Macau, co­menta que “Os que negam a estada de Camões em Macau baseiam-se no argumento do silêncio do poeta sobre Macau, alegando que Macau não existia. Se isto fosse verdade, tudo aquilo que ele não mencionaria não existiria” (Teixeira 1999b: 21). Nas suas obras A Gruta de Camões em Macau (Teixeira 1999a) e Ca­mões esteve em Macau (Teixeira 1999b) ele refuta essas opiniões, apresentando factos e excertos de documentos que deitam por terra os argumentos contrários à estada de Camões em Macau, o que não foi difícil, uma vez que os textos dos contestadores estavam repletos de erros históricos, erros que eles foram copiando uns dos outros, demons­trando uma ignorância sobre os pri­mórdios da história de Macau (Tei­xeira 1999b: 65-78).

Contudo, o que interessa aos ma­caenses não é a polémica criada à volta da estada de Camões em Ma­cau, mas sim, como já foi referido atrás, o que o poeta representa para a comunidade:

Macau só tem que se orgulhar de ter sido a primeira possessão ul­tramarina portuguesa a erigir um busto a Camões. Antes mesmo da capital do Império!

Porque se não estivera em corpo, o espírito do Poeta, em cá che­gando, nunca de cá saiu! Por aqui ficou a impregnar cada um dos descendentes dos portugueses que partiram em demanda de honra e proveito, na Índia e mais além, mesmo muito mais além da Taprobana…

E disso, todas as gentes de Ma­cau, de espírito aberto e ecumé­nico, neste pluriculturalismo que está na sua génese, devem estar orgulhosas. Porque, na obra de Camões, já encontramos a con­cepção globalista do mundo ba­seada no encontro entre duas cul­turas diferentes, que é justamente o que está na base do estabele­cimento de Macau. Camões é a chama que nos une, é o símbolo da simbiose do Ocidente com o Oriente (Ribeiro 2007: 26)

Um busto de Camões já se encon­trava na Gruta em 1794, pois é men­cionado por Sir George Staunton no diário de viagem da Embaixada de Lord Macartney à China em 1792-1794 (Teixeira 1999a: 67).

Dito isto, vem a propósito relembrar algumas das referências que um dos maiores escritores portugueses, dos raros que tiveram contacto directo com o Extremo Oriente, Camilo Pessanha, fez à Gruta de Camões e à permanência do vate em Macau, em “Macau e a Gruta de Camões”, incluído na compilação Camões nas Paragens Orientais – Textos por Camilo Pessanha e Venceslau de Morais:

Quanto à grandeza gigantesca de Camões, e à da assombrosa epo­peia marítima que culminou na formação do vasto império por­tuguês do século XVI, estão acima de qualquer discussão. Resta ape­nas ponderar se Macau, esta exí­gua península portuguesa do Mar da China ligada ao distrito chinês de Heong-Shan, tem qualidades que a recomendem para assim andar associada à memória dessa epopeia e à biografia do poeta sublime que a cantou.

Ora essas qualidades tem-nas Macau como nenhum outro ponto do Globo. Macau é o mais remoto padrão da estupenda actividade portuguesa no Oriente nesses tempos gloriosos. (…)

É a Gruta de Camões (…) esse lu­gar sobre todos prestigioso de­dicado ao culto de Camões, que é também o culto da Pátria. Culto e prestígio que não podem extin­guir-se enquanto houver portu­gueses; e enquanto não se extin­guem, há-de ser verdade intuitiva, superior a todas as investigações históricas, que o maior génio da raça lusitana sofreu, amou, medi­tou, em Macau (…) (Pessanha 1927: 13-15).

 

24 de Junho

 

Macau foi sempre um ponto estra­tégico nas rotas comerciais, o que gerou a cobiça por parte dos holan­deses no século XVII, como afirma Austin Coates:

Os Holandeses cedo chegaram à conclusão de que o lucro do co­mércio com o Japão dependia da quantidade de seda chinesa dis­ponível, e cujo monopólio Macau detinha, satisfazendo ampla­mente a insaciável procura japo­nesa. Assim, restava-lhes apenas a seda que iam obtendo dos pi­ratas chineses, a intervalos irregu­lares, e sempre após longas e di­fíceis negociações.

Gerou-se, pois, no seio dos Ho­landeses um crescente movi­mento de apoio àqueles que pro­punham a conquista de Macau pela força (Coates 1991: 76).

Em período de União das Coroas da Península Ibérica, os inimigos de Espanha passaram a ser os mesmos dos portugueses e, estando Filipe III de Espanha “(…) naturalmente mais interessado em salvaguardar as colónias fundadas pelos Espa­nhóis que em dar resposta aos pe­didos de reforços lançados pelos Portugueses” (Coates 1991: 73), nada fez para contestar a constitui­ção de Companhias das Índias Orientais por parte dos ingleses e holandeses, estes últimos especial­mente interessados nas colónias portuguesas.

A primeira investida dos holandeses deu-se em 1601. Como a cidade ainda não estava fortificada, entra­ram facilmente, mas a população rapidamente os deteve, acabando esta primeira tentativa de ocupação com o enforcamento de dezoito ho­landeses e a retirada dos seus bar­cos (Coates 1991: 74). Seguiram-se mais tentativas de tomar Macau, mas as hostilidades terminaram temporariamente com o Tratado de Antuérpia em 1609, decretando tré­guas entre a Holanda e a Espanha (e, por consequência, Portugal). Neste período foi desenvolvido um plano de defesa em Macau e cons­truíram-se fortificações militares:

É desta época que datam os for­tes da colina da Barra, à entrada do Porto Interior (a sul da penín­sula), bem como outros dois for­tins, construídos nas duas extre­midades da Praia Grande, para controlo do Porto Exterior.

Os preparativos da cidade mobili­zaram toda a população, incluindo os Jesuítas. Com efeito, toda a área ocupada pelos seus jardins e edifícios no cume do monte foi in­tegralmente coberta por espessa muralha (que ainda hoje ali se er­gue), fazendo-se a comunicação com o Colégio e a Igreja de São Paulo, que lhe eram adjacentes, por uma passagem secreta.

Foi também estabelecida uma fundição, cujo mestre era Manuel Bocarro, peça importante (se bem que ignorada) na transformação das tradições bélicas do Extremo Oriente, com os seus magníficos canhões (comprados por todos os países da região), bem como com outros artefactos (os melhores do género produzidos em toda a Ásia) (Coates 1991: 75-76).

Todos estes preparativos provaram-se essenciais, já que, findo o período de tréguas, os holandeses atacaram Macau outra vez em 1622. Os con­frontos tiveram início em 23 de Ju­nho, com fortes bombardeamentos sobre a cidade, que se encontrava desguarnecida, pois a maioria dos soldados estava fora a auxiliar tropas chinesas. Por consequência, “(…) só cerca de mil pessoas se encontra­vam na cidade, e, dessas, apenas oitenta europeus estariam aptos a pegar em armas” (Coates 1991: 77).

A batalha continuou no dia seguinte, 24 de Junho, dia de São João Bap­tista, com mais bombardeamentos e o desembarque dos holandeses. Austin Coates relata:

(…) a escassa população de Ma­cau – leigos e clérigos, homens livres e escravos – ergueu-se para a defender. Os Jesuítas rapida­mente desalojaram os canhões dos seus postigos originais, po­sicionando-os ao longo da mu­ralha norte do seu seminário-for­taleza. Refira-se a propósito que os padres jesuítas eram peritos em balística, habituados que es­tavam a lidar com a corte de Pe­quim (…).

Neste embate brutal era grande a escassez de armas e homens que as manejassem, especial­mente numa ocasião em que a defesa mais eficaz residia na in­tensidade e na frequência do fogo de artilharia. Mas tal deficiência veio a ser compensada pela pon­taria certeira de um padre-sol­dado. De facto, quando o inimigo se acercava já do sopé do Monte, o padre Rho começou a disparar o seu canhão, cujas balas caíram certeiras sobre os carroções que transportavam a pólvora da força holandesa, que rebentaram com estrondosa explosão. (…)

O grito de batalha lusitano, “Por Sant’Iago!”, brotou a certa altura de um qualquer peito, sendo um segundo depois gritado em unís­sono por todas as gargantas, como em uníssono avançou a multidão, inspirada por uma força comum, caindo de todos os lados sobre o invasor holandês. (…) A coberto da mais intensa fuzilaria, a vanguarda portuguesa enfren­tava já o inimigo em luta corpo a corpo. (…) O comandante da força invasora foi o primeiro a cair, após o que o resto das tropas holandesas, perdendo de vista o seu líder, vacilaram por completo. Momentos depois, tomados de pânico, batiam em retirada, des­fazendo-se das armas, acossados pelos Macaenses, que os perse­guiam pelos campos trespas­sando com as espadas tantos quantos podiam. Uma mulher afri­cana, vestida de homem, matou dois deles com uma forquilha (Coates 1991: 77-78).

Após a estrondosa derrota dos holan­deses, decidiu-se comemorar todos os anos o Dia de São João Baptista como agradecimento e recordação deste feito importante na história de Macau, algo que foi feito ao longo de quase quatro séculos, celebrado como o Dia de Macau até 1999. No entanto, apesar de já não ser feriado, os macaenses não se esquecem desta data e, todos os anos, através das suas associações com sede no terri­tório ou no estrangeiro, continuam a comemorar este dia com uma missa e um chá gordo, mantendo em pleno o seu significado para a comunidade.

Há datas que são marcos fundamen­tais de qualquer comunidade. O 24 de Junho é uma data inapagável da memória macaense: “A vitória de 24 de Junho de 1622, sobre os invaso­res holandeses, marca um dos mais brilhantes feitos do povo de Macau e um imorredoiro padrão nas tradi­ções desta Cidade do Nome de Deus” (Machado 2002: 137).

Sendo uma data específica relacio­nada com a história de Macau, é opinião generalizada na população que não deveria ter sido retirada dos calendários oficiais após a transição de administração.

 

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Monumento que assinala a vitória sobre os holandeses em 1622.

 

Natal

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Convívio de Natal.

 

A comunidade macaense é tradicio­nalmente católica, uma herança dos pais portugueses de tempos de ou­trora, e vive numa cidade repleta de igrejas e capelas, algumas existentes desde os primeiros tempos do esta­belecimento de Macau. Renelde da Silva justifica a religiosidade dos ma­caenses da seguinte forma:

Face à sua pequenez numérica num ambiente de omnipotência política da vizinhança e do relativo aban­dono da Metrópole, os macaenses aprenderam a contar consigo pró­prios, para enfrentar as situações difíceis, por que tiveram de passar.

Para além das suas forças, só po­diam contar com Deus. Daí a sua religiosidade (Silva 2001: 94).

Como para muitos outros católicos, para os macaenses, o Natal é uma festividade muito importante e am­plamente participada. Mas nunca foi só uma festa de família, pois foi sem­pre vivido também com intensidade em estabelecimentos de ensino, em organismos associativos, em empre­sas, em serviços públicos e em insti­tuições de solidariedade social (Ran­gel 2007: 319).

O escritor macaense Henrique de Senna Fernandes descreve assim o Natal no seio da sua família:

O Dezembro era um mês festivo. O primeiro domingo era dedicado à Primeira Comunhão, uma ceri­mónia tocante na Sé Catedral (…).

Logo a seguir, vinham os prepa­rativos para o Natal, as donas de casa atarefadas na cozinha, na confecção do aluar, dos cosco­rões, empadas e fartes, os costu­mados doces da época. Enco­mendavam-se o peru e outras carnes de Hong Kong e, em casa do meu Avô materno, não podia faltar o empadão gelatinado de peças de caça, o famoso “game-pie” do Lane Crawford. Encomen­davam-se também à Loja de Omar Moosa, mais conhecido por Kassam, figura prestigiosa e mais destacada da larga comunidade “Moura” de Macau (…).

A “missa do galo” desse tempo, o jantar de Natal, o deslumbra­mento dos brinquedos, a mesa repleta de iguarias, onde se co­mia à tripa forra, a alacridade e as gargalhadas dos familiares, ainda se repercutem na minha saudade. Os dias seguintes até os Reis, com quebra do dia do Ano Bom, eram dedicados a ami­gos e conhecidos (Fernandes 1999: 65).

Outro autor dá-nos o seu testemu­nho deste modo:

À missa do galo iam as famílias católicas, a que se seguia a ceia e o ansiado momento de abertura das prendas. As festas prolonga­vam-se no dia de Natal, com al­moço e jantar especialmente con­feccionados para a ocasião, onde não faltavam o peru e outros pra­tos escolhidos pelas donas de casa, elas próprias quase sempre excelentes cozinheiras.

Apesar das grandes modificações operadas nas últimas décadas, muitas destas tradições mantive­ram-se. A quadra festiva também era e é aproveitada para familia­res se reencontrarem e para cada um se lembrar dos amigos, sepa­rados pela distância e pelo tempo (Rangel 2006: 278).

Eis um outro sugestivo relato de um velho residente, José Silveira Ma­chado, originário dos Açores e ex-professor da Escola Comercial Pedro Nolasco, ao relembrar o seu pri­meiro Natal em Macau:

Ainda hoje recordo essa noite de festa e de emoções, que me deu a oportunidade de vir a conhecer, ao longo da minha vivência em Macau, a forma tradicional e muito especial como os macaen­ses preparavam e celebravam esta data tão festiva.

Católicos por tradição, convicção ou devoção, na senda dos hábitos e costumes que os missionários, navegadores e comerciantes para aqui trouxeram das terras de Por­tugal, punham um carinho muito especial nas comemorações do nascimento do Menino de Belém. (…)

À noite todos se preparavam para assistir à Missa do Galo, en­chendo-se de fiéis todas as igrejas da cidade e das ilhas, que, em noites de frio, se embiocavam em agasalhos grossos, porque não havia meios de transporte para os resguardar da inclemência do tempo. (…)

Terminada a Missa e o beija-pé ao Menino, regressavam todos a casa para a consoada em família, em que tomavam parte alguns parentes ou amigos mais chega­dos.

O que se fazia em primeiro lugar, era acender as velas e rezar diante do presépio e pedir graças para toda a família, presentes e ausen­tes.

Vinham então para a mesa grande perú, capão, presunto e todas as outras iguarias que faziam a delícia de todos (…) (Machado 2002: 139-140).

Devido à proximidade de Hong Kong, certos hábitos ingleses nata­lícios foram adoptados por algumas antigas famílias macaenses, como apagarem-se as luzes quando se serve o tradicional Christmas Pud­ding (pudim de Natal), em chamas, no Dia de Natal. Festa universal, comemorada de forma muito idêntica por milhões de pessoas, o Natal tinha e tem as suas especificidades próprias no seio das velhas famílias macaenses.

 

Bibliografia

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COATES, Austin (1991). Macau – Calçadas da História. Trad. Luísa Guedes. Lisboa: Gradiva e Instituto Cultural de Macau.

FERNANDES, Henrique de Senna (1999). “Macau de Ontem” in Luís Sá Cunha (org.) (1999). Macau di nôs-sa coraçám – Me­morandum afectivo para os participantes no III Encontro das Comunidades Macaenses. Pp. 51-69. Macau: Fundação Macau.

MACHADO, José Silveira (2002). Macau na Memória do Tempo. Macau: Edição do Autor.

PESSANHA, Camilo (1927). “Macau e a Gruta de Camões” in Luís Sá Cunha (org.) (1999). Camões nas Paragens Orientais – Textos por Camilo Pessanha e Venceslau de Morais. Reedição anastática do opúsculo editado em 1927. Pp. 12-15. Macau: Fundação Macau e Instituto Internacional de Macau.

RANGEL, Jorge A. H. (2006). Falar de Nós: Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro. Volume II. Macau: Instituto Internacional de Macau.

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RANGEL, Jorge A. H. (2009). Falar de Nós: Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro. Volume IV. Macau: Instituto Internacional de Macau.

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